Cinthia Marcelle: Barreiras de papel

Cinthia Marcelle, A família em desordem, 2018/2023. Com participação de Katharina Bednarczyk, Verena Freiberg, Ulrich Graupner, Nicola V. Manitta, Martin Mühlhoff, Linda Pade e Christian Vossiek. Cadarços, fósforos, tecido de algodão, folhas de plástico preto, papel de embalagem, tijolos, fita crepe, giz, pedras, barris de metal, terra, corda, blocos de anotações, fita gaffer, fita de velcro, caixas de papelão, jornal, cobertores de mudança, ripas de madeira e carpete. Dimensões variáveis. Foto: Hans Schrîder.
Em sua mostra individual na Alemanha, a artista brasileira convida a uma reflexão sobre as regras sociais e institucionais.
Duas salas de museu. Em uma, vemos uma estrutura robusta, feita de diferentes objetos postos lado a lado sobre um imenso tapete preto: ripas de madeira, rolos de fita adesiva, dois barris pretos cheios de terra avermelhada; pedras em sacos plásticos; caixas cheias de giz branco; fileiras sobre fileiras sobre fileiras de tijolos; caixas de fósforos; rolos de papel, corda, cadarços. A estrutura – é inevitável pensar em uma barreira – divide o espaço de maneira inapelável.

Detailed view: Cinthia Marcelle, em-entre-para-perante #2, 2015/2023, Acrylic on fabric, shoelaces on hardware, variable dimensions. Photo: Hans Schrîder
A outra sala contém... o que contém exatamente? Difícil dizer. Uma espécie de explosão dirigida, uma coreografia – bem estudada – da desordem: tecidos pretos pendem dos tetos altíssimos, as paredes brancas estão cobertas com discos de plástico; no chão há pedaços de papel dispostos em forma de pirâmide, de coração ou transformados em figuras de aparência alienígena; em um canto, vemos sacos brancos de conteúdo desconhecido e sinistro, por toda parte pedaços de corda, pedras, pó vermelho. O tapete preto, que também cobre o chão aqui, está trespassado de marcas brancas. Pouco a pouco começamos a reconhecer os objetos que vimos antes. Agora, livres de suas embalagens, com suas posições trocadas, quebrados, desgastados, entraram em novas relações. A ordem neurótica do primeiro espaço é agora caos, ou melhor: uma nova ordem. O espaço dividido e a parede intransponível dão lugar a uma cenografia que anima o nos mover de maneiras insólitas.
As salas compõem a fenomenal obra A família em desordem, da artista brasileira Cinthia Marcelle. A instalação, por sua vez, é o núcleo de Ferramentas desobedientes (Ungehorsame Werkzeuge / Herramientas desobedientes / Disobedient Tools), a exposição que o Museu Marta Herford, na Alemanha, com curadoria de Anna Roberta Goetz, dedicou a Marcelle até o final de maio de 2023.
Cinthia Marcelle nasceu em 1974 em Belo Horizonte, no Brasil, e vive e trabalha em São Paulo. Seu trabalho foi exposto em vários espaços, entre eles o Modern Art Oxford, o MoMA em Nova York, o PinchukArtCentre em Kiev ou o Museo de Artes Visuales em Santiago do Chile, bem como em várias bienais. Recentemente, sua obra foi objeto de importantes exposições panorâmicas: no MACBA, em Barcelona, no Museu de Arte de São Paulo (MASP) e, agora, no Marta Herford.
A família em desordem bem poderia ser considerada uma espécie de “enciclopédia” que engloba motivos e preocupações presentes no restante da obra de Marcelle.
No começo da exposição no Museu, encontramos um rolo de fita de velcro pendurado de uma parede (Obra dinâmica: à procura de sentido). De uma das extremidades pende um cadeado de metal. Em outras partes do museu, há outras duas fitas exibidas de forma diferente. Visitantes estão autorizados a desinstalá-las, mudar sua forma e reinstalá-las em outro lugar. A videoinstalação de
Confronto baseia-se – como todos os trabalhos em vídeo de Marcelle – na ideia de rotinas simples levadas a cabo por pessoas da mesma profissão. Neste caso, vemos as linhas de uma faixa de pedestres. Toda vez que o semáforo fica vermelho, artistas de rua entram na faixa de pedestres e fazem malabarismos na frente dos carros parados. A cada vez que aparece, o grupo fica mais numeroso. Quando o semáforo fica verde, as e os artistas saem. No entanto, quando o grupo é formado por oito pessoas, a rotina é quebrada: os artistas continuam fazendo malabarismos mesmo depois que o semáforo fica verde. Como os motoristas enfrentarão essa súbita anulação da validade da regra?
Outras obras rompem outras categorias tradicionais. Em em-entre-para-perante #2, ferramentas de metal, utilizadas normalmente para quebrar, cortar, desmontar, cavar, foram enroladas em cadarços. Estão, digamos, desativadas. Por via das dúvidas #3 consiste na representação de uma parede em uma folha de papel com pedaços de fita adesiva. É como se Marcelle estivesse zombando da própria ideia de “barreira”. E em Cerca Miragem (300 mourãos), trezentas estacas, que antes formavam uma cerca, são tiradas do chão e colocadas de cabeça para baixo contra uma parede. Elas agora formam uma nova cerca, porém inútil, que não demarca nada e poderia ser derrubada com um empurrão.

Cinthia Marcelle, Confronto, 2005, from the series ‚Unus mundus‘ (video still), Video, color, sound, 7:50 Min. (loop), Courtesy the artist.
Nessas obras, encontramos elementos típicos do trabalho de Marcelle: o uso de materiais simples, a colaboração com pessoas da classe trabalhadora ou o convite para modificar as obras. Mas há algo mais, que confere aos trabalhos da artista – especialmente quando vistos em conjunto – profundidade e significados fascinantes: cada um convida a uma reflexão sobre as regras sociais e institucionais: até que ponto essas regras dificultam nossos comportamentos cotidianos? E o que acontece quando as regras são suspensas?
Do mesmo modo, através de suas instalações, vídeos e objetos, cujos elementos fluem e não se comportam como “deveriam”, Marcelle questiona a maneira como entendemos objetos, mecanismos e hierarquias familiares, bem como conceitos como “ordem” e “caos” ou “autoria” artística.

Exhibition view: Cinthia Marcelle, Cerca Miragem (300 mourãos), 2005/2023, Robinia fence posts, lime paint, soil, variable dimensions, Courtesy the artist. Photo: Besim Mazhiqi
Visitar a exposição é testemunhar a deconstrução elegante, mas enfática, de noções que acreditávamos serem fixas. Testemunhamos o que acontece nas obras de Marcelle, nos afastamos delas e, de repente, sentimos que vemos (ou poderíamos – deveríamos? – ver) o mundo, as relações entre as pessoas, as coisas da vida cotidiana e as instituições que determinam essas relações de uma maneira completamente nova.
E, aqui também, o jogo entre as duas salas que compõem A família em desordem é revelador: cada uma delas provoca sensações contraditórias; a forma como as coisas estão expostas é radicalmente diferente, tanto que parece que os próprios objetos são diferentes. Mas, a rigor, ambas as salas se espelham uma na outra, poderiam ser uma só.
Cinthia Marcelle: Ferramentas desobedientes (Ungehorsame Werkzeuge / Herramientas desobedientes / Disobedient Tools)
Museum Marta Herford, 04/02/2023 – 29/05/2023
Hernán D. Caro é escritor e editor, nasceu em Bogotá, na Colômbia, e vive na Alemanha desde 2001. É doutor em Filosofia pela Universidade Humboldt de Berlim. Colaborou com veículos de mídia na América Latina e na Alemanha, entre outros com a revista Arcadia e a emissora Deutsche Welle. É colaborador independente da edição de domingo do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung. Foi coeditor da C&AL entre 2018 e 2021 e atualmente é coeditor da revista on-line Humboldt do Goethe-Institut.
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