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Cisco Merel: arte, arquitetura afro-antilhana e migração

Cisco Merel: Art, Afro-Antillean Architecture and Migration

Vista da exposição, Cisco Merel, La Puerta del Sol, Museo de Arte Contemporáneo de Panamá, 2024. Foto: Alfredo Martiz

10 Abril 2024

Revista América Latina

Palavras Gi Manara

5 min de leitura

Uma conversa com um de quatro artistas que representam o primeiro pavilhão do Panamá na Bienal de Arte de Veneza.

C& América Latina: Você começou a fazer arte com o grafite. Como foi sua transição entre o espaço público e as galerias?

Cisco Merel: Minha incursão no grafite surgiu inicialmente como uma extensão natural de minha conexão com o mundo do skate e da cidade. Ele foi a mídia mais acessível para dar vida a minha ideias naquele momento. À medida em que minha obra progredia, a conexão com a cidade se intensificou e comecei a olhar as coisas a partir de outro ângulo, descobrindo lugares e arquiteturas nos quais podia intervir.

Com o tempo, esse processo foi se diversificando e minha abordagem artística experimentou uma evolução significativa. A entrada no mundo da arte se materializou por acaso através da fotografia. Inicialmente, eu a utilizava como uma forma de documentar minhas intervenções em grafite. Esse caminho me levou a horizontes inexplorados. Lembro-me vividamente do dia em que um carro parou ao meu lado na rua e seu motorista me convidou para sua galeria. Esse encontro marcou o início de um novo capítulo na minha trajetória artística.

Installation view, Cisco Merel, La Puerta del Sol, Museo de arte contemporáneo de Panamá, 2024. Photo: Alfredo Martiz

Installation view, Cisco Merel, La Puerta del Sol, Museo de arte contemporáneo de Panamá, 2024. Photo: Alfredo Martiz

C&AL: Sua obra faz referências à geometria, à arquitetura e à tipografia. Quais são suas inspirações? E como você começa normalmente seu processo criativo?

CM: Meu processo criativo começa com a desfragmentação de letras a fim de criar um vocabulário de formas. Para mim, é como um jogo de múltiplas variações e possibilidades. Acho inspiração em referências de arquitetura, fotografia e no meu ambiente, tudo está intimamente relacionado ao meu trabalho. Passei bastante tempo na Europa, especialmente em Paris e na Alemanha, onde participei de várias residências artísticas. Essa experiência foi crucial para minha prática artística. Ao voltar para o Panamá, tive o privilégio de trabalhar durante dez anos no ateliê de Mestre Carlos Cruz Diez. Esse foi um período que marcou um momento especial no meu crescimento como artista e como pessoa.

Com o passar do tempo, compreendi que minha exploração das formas é mais do que uma maneira de me expressar criativamente, é uma forma de comunicar os temas que me interessam e que exploro em meu trabalho, como o contraste social, a migração e a paisagem urbana e sua carga simbólica.

Installation view, Cisco Merel, La Puerta del Sol, Museo de arte contemporáneo de Panamá, 2024. Photo: Alfredo Martiz

Installation view, Cisco Merel, La Puerta del Sol, Museo de arte contemporáneo de Panamá, 2024. Photo: Alfredo Martiz

C&AL: Como o Panamá, sua cultura e sua relação com ela influenciam sua arte?

CM: O Panamá se distingue por ser um lugar cheio de contrastes e enriquecido por influências de todo o mundo, graças a sua história de migração vinculada ao canal. Pessoalmente, sou um chinês afro-panamenho: uma mistura, produto de toda essa rica diversidade cultural que emerge dessa realidade, molda diretamente minhas obras. Minhas principais fontes de inspiração vêm da arte popular, da arquitetura afro-antilhana, da migração, da vida na rua, bem como das experiências com o Sol e com a chuva. A cor, tratada como um tema de empoderamento e sentido de pertencimento, ocupa um papel essencial em meu trabalho.

Observo como a arquitetura e os costumes se entrelaçam e se fundem ao longo do tempo, gerando uma mistura única. A cor, em particular, se transforma em uma ferramenta crucial para que nos apropriemos dessas estruturas herdadas, dando a elas identidade e significado próprio.

Installation view, Cisco Merel, La Puerta del Sol, Museo de arte contemporáneo de Panamá, 2024. Photo: Alfredo Martiz

Installation view, Cisco Merel, La Puerta del Sol, Museo de arte contemporáneo de Panamá, 2024. Photo: Alfredo Martiz

C&AL: Qual é o papel da cor e de outros materiais, como a terra?

CM: Pessoalmente, tenho uma conexão profunda com a argila. Cresci passando os verões com minha avó na sua casa construida com adobe há 106 anos. Foi aí que tudo começou, foi o lugar onde tive uma liberdade total desde a minha infância. Muitos anos depois, quando já estava imerso no meu trabalho artístico e os métodos de construção começaram a ficar mais complexos com a introdução da tecnologia e de novos conceitos, surgiu um medo de perder tudo, e me perguntava: “Se me tirassem tudo, poderia continuar minha obra?” Essa sensação foi uma espécie de premonição, pois mais tarde chegou a pandemia. Foi nesse momento que me dei conta de que essa sensação de vulnerabilidade havia chegado para abrir caminhos em direção a novas possibilidades.

Foi nesse momento que surgiu uma espécie de autorreflexão, uma necessidade de explorar e de me reconectar com as minhas raízes. Queria voltar aos métodos de construção de meus antepassados, descobrir os rituais e resgatar a riqueza cultural com a qual buscava me reconectar. Daí nasceu todo uma série de obras em argila, uma jornada que começou há oito anos.

Installation view, Cisco Merel, La Puerta del Sol, Museo de arte contemporáneo de Panamá, 2024. Photo: Alfredo Martiz

Installation view, Cisco Merel, La Puerta del Sol, Museo de arte contemporáneo de Panamá, 2024. Photo: Alfredo Martiz

C&AL: Este ano será a primeira vez que o Panamá terá um pavilhão em Veneza, com quatro artistas que irão se concentrar em refletir o ápice da migração do Panamá. O que isso significa para você? O que pode nos dizer sobre a sua participação?

CM: Para mim, é uma honra participar desta edição da Bienal de Veneza junto a colegas e mestres cuja obra aprecio profundamente, Isabel de Obaldia, Brooke Alfaro e Giana de Dier. Minha obra aborda especificamente o Tampão de Darién e tudo o que acontece na fronteira entre o Panamá e a Colômbia. Concentra-se na ilusão de seu cruzamento e na complexidade implicada em atravessar uma das florestas mais perigosas do mundo.

Espejismos del Tapón, para a Bienal de Veneza, apresenta-se como uma poderosa manifestação artística que pretende capturar e tornar visíveis as intrincadas questões sociais e migratórias que caracterizam o Tampão de Darién. Com uma forma linear, semelhante a uma trilha, a pintura evoca a dureza do caminho, simbolizando a resistência necessária para superar os obstáculos enfrentados por quem se aventura em busca de um futuro melhor.

A 60ª Bienal de Veneza será inaugurada no dia 20 de abril de 2024 em Veneza, Itália.

Cisco Merel (1981) vive e trabalha na Cidade do Panamá, Panamá. A produção artística de Cisco Merel baseia-se em uma rigorosa pesquisa formal e espacial na qual geometria, cor, espaço, abstração, abstração e cor, espaço, abstração e fenômenos visuais e sensoriais.

Tradução: Renata Ribeiro da Silva

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