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Criando lastros na América Latina

Creating Ballast In Latin America

Exposição Travessias Ocultas – Lastro Bolivia. Foto: Júlia Franco Braga.

12 Novembro 2018

Revista América Latina

Palavras Beatriz Lemos

5 min de leitura

A América Latina tem tradicionalmente uma história contada pelo olhar do outro, pelo viés do poder e da opressão. Ao nos darmos conta do cruel e arrastado histórico de manipulação a que fomos submetidos, estamos, finalmente, experimentando um processo de construção político-identitário significativo de decolonização do pensamento e da subjetividade. Isso implica na construção de vocabulários próprios e de léxicos políticos, que possam despedaçar o projeto colonial e que se configuram em luta contínua contra as normas instituídas.

Poster of Lastro at Oswald de Andrade Cultural Workshop by Sol Casal.

Poster of Lastro at Oswald de Andrade Cultural Workshop by Sol Casal.

A concepção desses glossários assim como outras ações de afirmação e luta compõem um inventário de processos anticoloniais. São iniciativas de resgate, reconhecimento e valorização do que é nosso, de como fazemos, pensamos e sentimos. A identificação de nossa linguagem, de nossos desejos. De uma história que sempre existiu, mas que nunca nos foi contada. E, principalmente, a nominação do opressor – ato que define o pensamento anticolonial.

Distância dos vizinhos

Ao longo da história, nós, latino-americanos, fomos submetidos a um longo processo de isolamento político. No caso do Brasil, a segregação em relação aos países vizinhos se consolidou de maneira mais visível. Disfarçada de dificuldade na diferença do idioma, o não pertencimento brasileiro a um devir latino-americano deve-se, sem dúvida, às estratégias ideológicas de enfraquecimento da região. Esse distanciamento é notável em todo o continente, em diferentes proporções, mesmo diante de episódios políticos e históricos semelhantes. De maneira geral, observa-se um panorama de desvalorização do que é local, repleto de reverências ao Norte.

Sistema de resistências

Algumas iniciativas de conexão surgiram, portanto, como tentativas de fortalecimento de laços e reconhecimento cultural. E a curadoria de arte, pensada como articulação de circuitos, tem papel fundamental na formação do pensamento em rede, elaborando sistemas de resistências. Desenhar novos mundos, novos trânsitos. Situar-se no interstício.

Travessias Ocultas – Lastro Bolivia Exhibition. Photo: Júlia Franco Braga.

Travessias Ocultas – Lastro Bolivia Exhibition. Photo: Júlia Franco Braga.

Foi a prática curatorial a partir desse viés que proporcionou a criação de “Lastro – intercâmbios livres em arte”, projeto que surge como desejo de criação de uma rede que una diversas cenas de artes visuais latino-americanas. Contudo, hoje, após 13 anos de existência, Lastro se consolida enquanto pensamento acerca das táticas que fraturam a estrutura do saber hegemônico. Ou seja, entendendo-se enquanto possibilidade a partir do acesso a uma epistemologia latino-americana anticolonial, além da crença na total legitimidade da produção criativa e intelectual do Sul global que prevê a quebra do projeto colonial.

Lastro baseia-se na colaboração e na autonomia. Enquanto rede, projeto, plataforma e pesquisa, pode assumir tais características de acordo com o contexto proposto, configurando-se, portanto, a partir de residências, conexão afetiva, grupos de estudos, exposições, publicações, biblioteca, arquivo vivo, cursos livres e ativações na programação de espaços culturais. Em todos os casos, seu alicerce é a autogestão.

Lastro Project, Bolivia. Photo: Júlia Franco Braga.

Lastro Project, Bolivia. Photo: Júlia Franco Braga.

Tendo iniciado no ano de 2005, em Buenos Aires, como uma iniciativa de intercâmbio de portfólios entre artistas cariocas e portenhos, o projeto se desenvolveu nos dez primeiros anos com o objetivo de catalogação de agentes e espaços da arte latino-americanos. Ao longo desse período, foram realizadas 17 residências que se desdobraram em uma plataforma digital, entre 2010 e 2015, com cerca de 2 mil usuários cadastrados, entre artistas, curadores, pesquisadores, espaços de arte, galerias, instituições e projetos artísticos.

O site Lastro divulgava também convocatórias, eventos, fórum de debates e ensaios críticos sobre arte e cultura contemporânea da Argentina, Colômbia, Chile, Equador, Bolívia, Paraguai, Venezuela e Cuba. Além do mapeamento online, o projeto também se constituiu em uma biblioteca com cerca de 900 títulos, entre catálogos e livros, de arte contemporânea, história da arte e sociologia, editados em países da América do Sul e Cuba.

Grupos de estudos e oficinas

Após completar sua primeira década de atuação, a plataforma passou também a conduzir projetos coletivos. As residências e exposições Lastro em Campo – percursos ancestrais e cotidianos (2015/2016) e Travessias Ocultas – Lastro Bolívia (2017/2018) foram realizadas através de dinâmicas de autogestão para a captação de recursos, logísticas de viagem e eixos conceituais de pesquisa.

Atualmente, Lastro tem se dedicado, entre outros, ao estudo dos processos anticoloniais na América Latina através de grupos de estudos e da elaboração de oficinas. O Grupo de Estudos Lastro é um coletivo de estudos e produção em arte, escrita e ativismo. Com periodicidade semanal, o grupo se reúne desde 2017, em São Paulo, partindo do interesse comum de desconstruir de narrativas hegemônicas e tendo como dinâmica de trabalho a produção de obras, exercícios político-estéticos e publicações em formato de fanzines.

As discussões e os desdobramentos são suscitados por leituras de autorxs provenientes do Sul global, análises de filmes, conteúdo da web e situações do cotidiano. Identificando-se como uma intenção de quebra do padrão, Lastro existe – e resiste – como estratégia para o coletivo, tomando a experiência como ferramenta de diálogo. Em suma, um projeto autônomo e livre em seus enlaces.

Beatriz Lemos atua como curadora e pesquisadora especializada em articulações em redes. É idealizadora da plataforma de pesquisa “Lastro – intercâmbios livres em arte”. Atualmente, coordena os programas autônomos Lastro Al Janiah (série de proposições no espaço cultural e restaurante palestino em São Paulo) e o Grupo de Estudos Lastro na Casa do Povo (SP).

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