De Gana para a Bahia

Zohra Opoku, Unraveled Threads (Fios desembaraçados), 2017, serigrafia em algodão, tela e linho articulada com fios/ aplicações: tecido kente, lã, tinta acrílica etc. Cortesia da artista.
A artista fala sobre seu projeto “Queenmothers”, no qual explora as ligações entre Gana e o Brasil.
Carregada de performance e repleta de poder inovativo, Nathi.Aha.Sasa. funcionou como uma homenagem ao cenário da rica arte contemporânea da África, conectando o continente com a Diáspora.
C&: Você disse que chegar à Bahia vinda de Gana era como chegar em casa. Pode falar mais sobre isso?
Zohra Opoku: O Brasil é conhecido pelo fato de ter a maior população de afrodescendentes fora da África. Chegando a Salvador, não poderia ter tido um sentimento de autenticidade maior. Estou falando sobre o clima quente; a luz, com a névoa tocando as montanhas ao nascer do sol; cheiros específicos; soul food; o som dos tambores; e, acima de tudo, pessoas que se aproximam de você como se você já fosse da família. Identificando-me como alemã, afro-alemã, africana, ganesa, obroni (termo que os ganeses dão às pessoas de pele mais clara), axante, no Brasil, estou no lugar certo, a encarnação do híbrido. Aprendi a viver como uma camaleoa, e isso influenciou bastante meu trabalho. O que quero expressar é como o híbrido pode ser usado de forma positiva, para buscar o pertencimento e para misturar-se, ou até mesmo desaparecer.

Zohra Opoku, Selfportraits 2015, Pigment print on Hahnemühle Photo Rag, 147x110cm. Courtesy the artist
C&:Para você, pessoalmente, quais as conexões mais relevantes entre Gana e Brasil?
ZO: Quando decidi entrar em um curso de Capoeira Angola na Alemanha, não tinha ideia de que experienciar essa forma de arte no Brasil viria a se entrelaçar tão intimamente à minha experiência transformativa, levando-me do simples “me” (“eu”) a um mais consolidado “my-self” (“eu mesma”).
Salvador foi a primeira capital colonial do Brasil e um dos maiores mercados de escravos da América do Sul. Isso teve a função de abrir meus olhos durante minha formação. Numa viagem ao Brasil com meu grupo de capoeira, em 2007, tive a chance de experienciar a África de uma perspectiva totalmente nova. Isso me fez olhar mais de perto e reanalisar minha objetividade a respeito da história colonial e das memórias culturais africanas. Isso me ajudou a refletir sobre minha proveniência afro-alemã em nível pessoal, mas também em relação a conflitos sociais.
Descobri a mim mesma nessa jornada. E, apesar de ter viajado a Gana muitas vezes antes, quando voltei da Bahia, era capaz de ler, digerir e discutir os fatos tradicionais em conexão com situações modernas em Gana mais concreta e extensivamente, depois de ter visto versões filtradas, mas remanescentes e evoluídas no Brasil. Essas experiências expandiram minhas habilidades pessoais para além da função de designer de moda e me levaram a estabelecer projetos artísticos relacionados a cultura têxtil e identidade.

Installation shot, Zohra Opoku, Queenmothers, Sassa, Gallery 1957, photo by Araba Ankuma & Joojo Daniels. Courtesy the artist and Gallery 1957
C&: Como sua pesquisa na Bahia contribuiu para sua obra mais recente, Queenmothers, relacionada a mulheres líderes na região Axante, em Gana?
ZO: Olhei para sistemas matriarcais semelhantes, que cresceram a partir de religiões africanas, como as Mães de Santo ou Mães de Terreiros. Para mim, essas figuras representam os catalisadores mais importantes na religião afro-brasileira Candomblé. As mulheres, com sua presença espiritual notável, agem como facilitadoras para a comunidade e sua principal obrigação é ser capaz de receber seu orixá, ou seja, deixar o espírito entrar em seu corpo. Mas esse dom vem acompanhado de muitas responsabilidades. Observei muitas semelhanças entre essas mulheres e as Queenmothers de Gana.
C&: Por fim, você poderia falar a respeito de seu uso do tecido e do aspecto das máscaras culturais em sua obra?
ZO: Estudei ambos, moda e fotografia analógica. Gosto de experimentar com a postura dos sujeitos dos meus retratos, permitindo que os materiais se movimentem. As duas práticas se misturam em meus sun prints, em que minha obra fotográfica é transferida para roupas de cama, como em minha exibição Sassa, por exemplo. O material absorve literalmente a imagem fotográfica, demonstrando o quanto, na sociedade, o material pode vir a ser impregnado de significado, memórias e histórias ao longo do tempo.
Sempre fui fascinada pela fotografia de estúdio da África Ocidental e o papel que os trajes desempenham. Moda e códigos de vestimenta, que expressam pertencimento cultural, sempre foram o foco da minha pesquisa. Admiro trajes que servem de camuflagem, disfarce e mimetismo. A escolha das roupas quase sempre é associada ao compromisso social e estilo de aparência, o que, sem dúvida, é uma metáfora para a identidade. A questão da identidade foi o ponto de partida para meu trabalho como artista, e também está profundamente enraizada em minha família, tanto do lado alemão quanto do ganês.
Zohra Opoku é uma artista multidisciplinar alemã-ganense. Vive e trabalha em Acra.
Tradução do inglês por Renata Ribeiro da Silva.
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