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Pavilhão Hãhãwpuá: a comunidade é mais importante que o trabalho em si

Hãhãwpuá Pavilion: the Community Is More Important Than the Work Itself

Glicéria Tupinambá, Manto tupinambá, 2023. Cortesia da artista. Foto: Glicéria Tupinambá

28 Fevereiro 2024

Revista América Latina

Palavras Will Furtado

5 min de leitura

Uma conversa com Arissana Pataxó, Denilson Baniwa e Gustavo Caboco Wapichana, responsáveis pela curadoria do pavilhão brasileiro em Veneza.

Pela primeira vez na história, uma artista indígena vai representar o Brasil na Bienal de Veneza. Glicéria Tupinambá é a artista selecionada pela equipe de curadoria Arissana Pataxó, Denilson Baniwa e Gustavo Caboco Wapichana. A exposição é intitulada Ka’a Pûera: nós somos pássaros que andam. O título Ka’a Pûera faz alusão a duas interpretações interligadas. Em primeiro lugar, faz referência a espaços de roça que, após a colheita, ficam adormecidos. Surge então um lugar com vegetação baixa, que revela um potencial de ressurgimento. Além disso, a capoeira é também conhecida pelos Tupinambá como uma pequena ave que vive em florestas densas, camuflando-se no ambiente. Anunciados também foram a Comunidade Tupinambá da Serra do Padeiro e Olivença, na Bahia, para a realização de suas obras. Adicionalmente, o Pavilhão também traz obras dos artistas Olinda Tupinambá e Ziel Karapotó. Glicéria Tupinambá evoca os mantos de seu povo para formar a instalação Okará Assojaba. Okará é uma assembléia da sociedade Tupinambá. Seu objetivo é criar um conselho de escuta onde reúnem-se líderes que portam os mantos tupinambá: as mulheres, os pajés e os caciques. A instalação Okará Assojaba faz referência a essa assembleia ao trazer um manto tupinambá produzido por Glicéria de modo coletivo com sua família e a Comunidade Tupinambá da Serra do Padeiro, acompanhado por mantos/tarrafas (redes de pesca). A instalação ainda é composta por onze cartas escritas por Glicéria, assinadas em conjunto com a Associação dos Índios Tupinambá da Serra do Padeiro e enviadas aos museus que possuem mantos tupinambá e outros elementos de sua cultura em seus acervos. A C& América Latina conversou com a equipe de curadoria sobre esse ato histórico.

Olinda Tupinambá, Balance, 2020. Video installation composed of soil and seeds. Courtesy of the artist

Olinda Tupinambá, Balance, 2020. Video installation composed of soil and seeds. Courtesy of the artist

C& América Latina: Parabéns a todes! Poderiam falar sobre o processo de escolha de Glicéria Tupinambá e sobre o motivo dessa decisão?

Equipe curatorial: Glicéria percorreu um caminho que vai além da ideia de trajetória artística. Ela carrega consigo seu território Tupinambá, a Serra do Padeiro na Terra Indígena Tupinambá de Olivença e a luta por direitos dentro do movimento indígena. A pesquisa que vem realizando com sua comunidade, a história Tupinambá e as relações com museus e outras instituições artísticas e acadêmicas espalhadas pelo mundo nos permitem visualizar como as violências coloniais estão em constante atualização. As discussões sobre patrimônio material, imaterial, bem como a discussão sobre direitos indígenas e direitos das mulheres estão presentes em seu trabalho com os mantos tupinambá quando ela afirma que "o manto é feminino".

C&AL: Porque demorou tanto tempo para que o pavilhão seja representado por uma artista proveniente dos povos originários? E o que vem acontecendo nas estruturas artísticas no Brasil que demonstra que esta não será a última vez?

EC: Será que somos nós que temos que responder a esta pergunta? As instituições do mundo todo têm revisitado suas políticas de relações. Não há uma garantia de que esta não seja a última vez, mas sonhamos com uma continuidade de pavilhões indígenas como forma de atualizar narrativas estereotipadas. É importante que nos situemos no tempo: a Bienal de Veneza teve sua primeira edição em 1893 e temos notícia de que, em 1986, a chamada "Arte Plumária" esteve no pavilhão brasileiro, apesar da ausência de pessoas indígenas. Essa temporalidade levanta uma série de questões relevantes: o que os povos indígenas no Brasil estavam vivendo em 1893? E os povos Tupinambá? Que realidades os povos indígenas enfrentavam em 1986?

Ziel Karapotó, School of Fish, 2023. Installation composed of fishing net, gourd maracas, replicas of fired cartridges and soundscape. Collection: Museu Paranaense, Curitiba. Courtesy of the artist

Ziel Karapotó, School of Fish, 2023. Installation composed of fishing net, gourd maracas, replicas of fired cartridges and soundscape. Collection: Museu Paranaense, Curitiba. Courtesy of the artist

C&AL: Por que a mudança do nome do pavilhão?

EC: Porque os povos indígenas no Brasil conhecem esse território por vários outros nomes. A começar pela costa brasileira nessa disputa de narrativa da invasão-descobrimento. Os povos Pataxó conhecem esse território milenar pelo nome de Hãhãwpuá. Então, a proposta de que o pavilhão tenha um outro nome é uma medida pedagógica para o povo brasileiro, uma forma de levantar as questões: como os povos indígenas do sul conhecem o Brasil? E os povos do nordeste? E os amazônicos? E por aí vai. A mudança de nome nos traz consciência sobre esse território que partilhamos.

C&AL: Por que é importante o convite a outres participantes no Pavilhão Hãhãwpuá?

Agregar o território Tupinambá da Serra do Padeiro através do convite a artistas da própria comunidade é uma maneira de romper com o exotismo difundido há muito tempo na Europa sobre "habitantes do novo mundo". É uma forma de estabelecer um diálogo do presente com a história de desterritorialização do povo Tupinambá contada por vozes que resistiram, mas que, por muito tempo, foram apagadas. O fato de a artista colocar seu trabalho à disposição da comunidade faz todo o sentido: enquanto artistas não-indígenas pensam trabalhos com outros artistas como algo coletivo, trazemos aqui uma apresentação para além do coletivo, mas no sentido comunitário, que agrega o povo e move a comunidade. Trazer outros artistas é fazer um outro tipo de trabalho artístico, onde a comunidade é mais importante que o trabalho em si. Essa relação simboliza um marco inicial no próprio Movimento Indígena e na atuação de Glicéria Tupinambá como artista e pesquisadora.

A 60ª Bienal de Veneza será inaugurada no dia 20 de abril de 2024.

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