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Arte entre censura e cumplicidade

Art Between Censorship And Complicity

Adler Guerrier, Sem título (Beckoned by the light and passage to an enabling and condition-shaping land – stationed on Biscayne Bay), 2017. Christian Hernandez David Castillo Gallery.

Como parte da campanha promocional pelo aniversário de 500 anos da cidade de Havana, a atual Bienal – enquanto produto cultural turístico internacional – oferece ao visitante uma experiência otimista: um ambiente de celebração marcado pelo tráfego de novas ideias, a circulação de pessoas estrangeiras e a sensação de bem-estar em um espaço público “isento de conflitos”.

Os visitantes (curadores, críticos e colecionadores) exploram a paisagem autóctone e buscam contato direto com a produção artística local cubana. Enquanto isso, criadores auxiliam na preparação e instalação das obras, na intervenção de edifícios abandonados e reuniões festivas sob amparo institucional. Havana chega a seus 500 anos mantendo o apelo internacional gerado por seu clima político, a “espontaneidade do povo” e a “riqueza de suas paisagens”. A cidade se transforma para o turismo com a construção de novos prédios... em meio à decadência social generalizada.

No fim de 2017, os devastadores efeitos do furacão Irma causaram o cancelamento da Bienal, programada originalmente para o último trimestre de 2018. A decisão de postergar a Bienal produziu reações consideráveis no cenário artístico cubano. O artista Luis Manuel Otero e a historiadora da arte Yanelys Núñez organizaram una bienal alternativa, a#00Bienal de La Habana, cuja execução – contra a vontade oficial – foi realizada a partir de espaços independentes, como estúdios e casas de artistas. A #00Bienal de La Habana manteve vivo o espírito da Bienal em um momento de crise e, junto a exposições como o festival Artes de Cuba: desde la isla para el mundo, em Washington, Estados Unidos, e Ola Cuba, em Lille, França, manteve a discussão – e com isso o interesse – internacional sobre a arte cubana.

Luis Manuel Otero Alcántara, Miss Biennial, 2015. Photo: Emanuelle Mozzetti. Courtesy of the artist.

Luis Manuel Otero Alcántara, Miss Biennial, 2015. Photo: Emanuelle Mozzetti. Courtesy of the artist.

Como defendem Pedro Cruz Sánchez e María Teresa Marín em “El turista como espectador del arte contemporáneo” (1999): “As exposições tornam-se grandes operações de marketing e campanhas publicitárias bem estudadas que, na hora de criar o produto, criam a demanda social do mesmo”. A melhor estratégia para a atual Bienal de Havana teria sido convidar Luis Manuel Otero e Yanelys Núñez a debater sobre as experiências da #00Bienal, apresentar o catálogo e analisar quais outras narrativas e modelos de gestão a bienal alternativa propiciou. Sua participação na atual Bienal teria significado uma reconciliação, uma esperança (ou ilusão) de liberdade criativa. No entanto, sob a sombra do Decreto 349, Otero foi detido pelas autoridades dia 4 e 11 de abril de 2019 para impedir a realização de ações durante a Bienal. De sua casa, em La Habana Vieja, o artista prepara agora a Bienal sin 349, uma bienal alternativa na qual irá expor a série Se USA: uma homenagem à história minúscula e uma reivindicação à liberdade de opinião.

Com o propósito de “descentralizar” a cena artística cubana – estratégia já colocada em prática na #00Bienal com o lema “En cada estudio, una Bienal” –, na atual Bienal vários artistas abrem suas casas para apresentar projetos curatoriais e colaborativos. O artista Reynier Leyva Novo inaugura no endereço do seu bairro Párraga a exposição Patria, muerte y azúcar, sobre a temática da escravidão. A dupla criativa Cara Lewis e Alejandro Figueredo apresentará em uma residência do Vedado a exposição Cantos comunes. Este evento, nas palavras de seus organizadores, propõe o lúdico e o absurdo como estratégia para narrar a história de acontecimentos simples e cotidianos.

Óscar Figueroa, Intervention Former United Fruit Company Offices. Limón, Costa Rica, 2016. Courtesy of the artist.

Óscar Figueroa, Intervention Former United Fruit Company Offices. Limón, Costa Rica, 2016. Courtesy of the artist.

Pela primeira vez, a Bienal de Havana expande suas ações a outras províncias do país. Em Matanzas, a artista María Magdalena Campos-Pons chama a atenção para a relevância histórica, cultural e geográfica de sua região natal. O projeto coletivo Ríos intermitentes agrupa mais de quarenta artistas nacionais e internacionais, entre os quais se encontram Cullen Washington, Adam Elkins e Carrie Mae Weems.

A Bienal de Havana, intitulada La construcción de lo posible, acontecerá de 12 de abril a 12 de maio de 2019. Segundo dados oficiais, serão realizadas 60 mostras coletivas, 36 exposições individuais e a dois, 85 open estúdios e 19 intervenções em espaços públicos. A Bienal acolherá artistas vindos da África (Mali, Congo, Benin, Quênia, Marrocos, Senegal, Nigéria e Egito), do Oriente Médio (Síria e Irã), da Europa (Espanha, Finlândia, Alemanha, França e Portugal), Ásia (Japão, China, Índia e Filipinas), América Latina (Argentina, Colômbia, Chile e México) e do Caribe (Barbados, Martinica, Haiti, Porto Rico e República Dominicana).

Charo Oquet, Written on Skin and Sacred Gestures, 2019. Photo: William Cordova. Courtesy of the artist.

Charo Oquet, Written on Skin and Sacred Gestures, 2019. Photo: William Cordova. Courtesy of the artist.

Entre as exposições principais se encontra a mostra coletiva no Centro de Arte Contemporânea Wifredo Lam, onde participam artistas como David Beltrán (Cuba), Camilo Yañez (Chile), Maya Watanabe (Peru), Abdoulaye Konaté (Mali), Alexia Miranda (El Salvador) e Adler Guerrier (Haiti-EUA), que parte da pesquisa sobre a herança haitiana em Cuba para refletir sobre as características da paisagem caribenha. Um enfoque parecido é mostrado pela artista Charo Oquet (República Dominicana-Estados Unidos) na exposição coletiva na Casa de México. Sua instalação Voces de Calibán explora as práticas culturais das comunidades afro-caribenhas a partir de noções de alegria, esperança e cura.

Na rua Malecón 307 pode-se encontrar Cumanana (Pa´Nicomedes Santa Cruz, Nicolás Guillén e Alanna Lockward), do artista William Córdova (Peru-Estados Unidos). A obra é uma meditação sobre diálogos da Diáspora Africana no Caribe e nas Américas a partir da interseção dos valores entre a arquitetura andina e a arquitetura vernacular contemporânea. No Centro Hispano-americano de Cultura, Oscar Figueroa (Costa Rica) apresenta On the other side of the railroads, um conjunto de trabalhos que repensam as ideias de progresso e modernidade na América Central.

ABienal de Havana acontece de 12 de abril a 12 de maio de 2019 com o título La construcción de lo posible.

Aldeide Delgado é historiadora e curadora independente. Durante o ano de 2018 foi bolsista da Escuela de Crítica de Arte (INBA-Proyecto Siqueiros) com o apoio da Fundación Jumex e PAC. Em 2017 foi premiada com a Bolsa de Pesquisa e Produção de Ensaio Crítico organizada por Teor/éTica. Seus interesses incluem gênero, identidade racial, fotografia e abstração nas artes visuais. Fez palestras em The New School, CalArts, Centro Cultural Español Miami, Casa de las Américas e 12 Bienal de Havana. É colaboradora de Artishock, Terremoto, C& América Latina e Art Nexus em Miami.

Traduzido do espanhol por Raphael Daibert.

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