Arquitetura indígena nas Américas

Clarissa Tossin, Ch’u Mayaa, 2017, imagem da produção. Coreografia/performer: Crystal Sepúlveda; cinematografia: Jeremy Glaholt. Originalmente comissionado e produzido pelo Departamento de Assuntos Culturais da Cidade de Los Angeles para a exposição “Condemned to be Modern” (“Condenado a ser moderno”), como parte do projeto “Pacific Standard Time: LA/LA” (Horário oficial do Pacífico: LA/LA), da Fundação Getty. Cortesia da artista.
O período da história ao qual às vezes nos referimos inocuamente como “época dos descobrimentos” colocou os europeus em contato com os povos indígenas das Américas, grupos tão radicalmente diferentes que os teólogos dedicaram um esforço considerável para determinar se os “índios” teriam almas. A narrativa convencional relata que os europeus dominaram completamente aqueles que encontraram. Mas, na verdade, os europeus aprenderam e foram influenciados por muitas formas da sabedoria indígena, incluindo suas técnicas de construção.
Esse legado é o tema central da exposição Pacha, Llaqta, Wasichay: Indigenous Space, Modern Architecture, New Art (Pacha, Llaqta, Wasichay: espaço indígena, arquitetura moderna e arte nova), no Whitney Museum of American Art, em Nova York (de 13 de julho a 30 de setembro de 2018). As três primeiras palavras do título da exposição vêm do quíchua, a língua indígena mais falada das Américas. A primeira quer dizer “tempo”, “espaço”, “natureza”, “mundo”; a segunda, “lugar,” “país”, “comunidade,” e a última, “construir”.

Ronny Quevedo, ULAMA-ULE-ALLEY OOP, 2017. Enamel, silver leaf, vinyl and graphite pencil on Mylar, 42 × 84 in. (106.7 × 213.4 cm). Collection of the artist. Photograph by Argenis Apolinario. Courtesy of the Whitney Museum of American Art, New York.
A exposição reúne sete artistas residentes nos Estados Unidos e em Porto Rico no início e meio de suas carreiras, e em cujas obras estão presentes os ecos da indigenidade na arquitetura contemporânea. Tomemos algo como os esportes considerados estipicamente norte-americanos, como o basquetebol ou o raquetebol, “inventados” respectivamente em 1891 pelo dr. James Naismith e em 1959 por Joseph Sobek. Esses jogos stêm um precursor arcaico,ã o ulama, o mais antigo jogo conhecido envolvendo uma bola de borracha (arqueólogos descobriram em escavações bolas que datam pelo menos do ano 1.600 a.C.). Apesar de não termos conhecimentos sobre as regras exatas desse jogo, existem registros de quadras estreitas e compridas (taste) com linhas desenhadas a giz, divididas em lados opostos por uma linha central (analco). Qualquer pessoa que já tenha ido a um ginásio com certeza conhece o cenário. Numa série de obras que incluem ULAMA-ULE-ALLEY OOP (2017), o artista equatoriano Ronny Quevedo mostra a similaridade dessas quadras esportivas ãcom suas descendentes contemporâneas, desestabilizando assim o suposto caráter de exclusividade da cultura norte-americana.
Enquanto algumas dessas heranças da era pré-colombiana são inconscientes ou até mesmo acidentais, outras são bem propositais, como no caso de várias formas de arquitetura de “revival” no sudoeste dos Estados Unidos. Quando essa região buscou uma identidade arquitetônica distinta no início do século 20, os projetistas voltaram sua atenção para o passado da região e as grandes construções executadas pelos povos indígenas. Essa tendência alcançou um ápice arquitetônico na época, influenciando arquitetos famosos como Frank Lloyd Wright, cuja construção Hollyhock House, em East Hollywood, Los Angeles, afazia parte do “revival” maia.
Naturalmente essas construções só stomavam emprestada a estética das culturas dizimadas quando da chegada dos europeus ao “Novo Mundo”. Embora várias características das construções centro-americanas constituíssem adaptações específicas às técnicas, materiais e crenças dos povos indígenas, elas ficaram desprovidas de significado nas mãos de arquitetos como Wright, feitas para servir propósitos meramente decorativos. Em seu vídeo Ch’u Mayaa, a artista brasileira Clarissa Tossin colabora com a performer Crystal Sepúlveda para reviver a herança encoberta. O título da peça se refere ao “azul Maia”, um dos pigmentos mais resistentes da cerâmica Maia, frequentemente o último a perdurar nesses artefatos. Tal como essa cor, os indígenas perduram em nossa cultura, mesmo que não reconheçamos isso.

Livia Corona Benjamín, Mazatlpilli, 2018. Pigment inkjet print with turquoise, jade, coral, onyx, obsidian, tiger’s eye, and animal bone, 30 × 38 in. (76.2 × 96.5 cm). Collection of the artist. Courtesy of the Whitney Museum of American Art, New York.
Mas, em outras épocas, ficamos ansiosos por desvendar o passado, como na ocasião em que o governo mexicano realocou a escultura gigante de Tlāloc, o deus asteca da chuva, para o Museu Nacional de Antropologia, em 1964. Enquanto a arquitetura modernista do prédio se insere no futuro, a escultura primordial aponta para o passado, em uma metáfora perfeita da disciplina da antropologia, que inicialmente buscava estudar cientificamente as “culturas primitivas”.
De modo parecido com o caso da Hollyhock House, vemos novamente uma cultura decorando a si mesma com a outra, ignorando os significados religiosos que Tlāloc tinha e continua a ter para os povos indígenas. A artista mexicana Claudia Peña Salinas investigou o destino do monolito de Tlāloc durante algum tempo e contribuiu com um trio de esculturas, incluindo Cueyatl (2017), que vislumbra Tlālōcān, um paraíso governado conjuntamente por Tlāloc e Chalchiuhtlicue, a deusa asteca da água. Os títulos das peças são vários amálgamas dos dois nomes, deconstruídos e reunidos novamente, da mesma forma que o governo mexicano desarraigou e replantou o monumento a Tlāloc.

Claudia Peña Salinas, Cueyatl, 2017. Brass, dyed cotton, and concrete frog, 24 ½ x 24 x 61 in. Collection of the artist. Courtesy of the Whitney Museum of American Art, New York.
Em paralelo ao movimento das peças antigas através das Américas há, obviamente, o movimentos dos corpos. Como vimos tragicamente no noticiário, a fronteira dos Estados Unidos com o México é uma faca que pode cortar os laços familiares com rapidez. E também é capaz de separar os imigrantes de suas identidades, já que muitos deles inventam personagens com o propósito de cruzar a fronteira. Isso aconteceu com o pai do artista salvadorenho Guadalupe Maravilla, que recentemente readotou seu nome de nascença e o pseudônimo não documentado de seu pai como sobrenome. Maravilla criou uma série de obras em papel intitulada Requiem for a border crossing of my undocumented father (Réquiem do cruzamento de fronteira de meu pai sem documentos) inspirada no manuscrito em língua náuatle Historia Tolteca Chichimeca, escrito num momento crucial do século 16, quando os manuscritos ilustrados estavam gradualmente cedendo lugar aos textos alfabéticos.

Guadalupe Maravilla, Requiem for my border crossing (Collaborative drawing between the undocumented) #12, 2018. Inkjet print with graphite pencil and ink, 30 × 90 in. (76.2 × 228.6 cm). Collection of the artist. Courtesy of the Whitney Museum of American Art, New York.
Como o manuscrito náuatle Historia Tolteca Chichimeca, as peças que constituem o Requiem for a border crossing of my undocumented father combinam linhas e imagens de forma tanto desorientadora quanto sugestiva. Talvez esses réquiens paternais sirvam para nos colocar no lugar de um imigrante navegando nos espaços físico e legal, tentando decifrar um universo de signos simultaneamente familiares e estranhos.
Pacha, Llaqta, Wasichay: Indigenous Space, Modern Architecture, New Art (Pacha, Llaqta, Wasichay: espaço indígena, arquitetura moderna e arte nova), Whitney Museum of American Art, Nova York City. De 13 de julho a 30 de setembro de 2018.
Brandon Sward é um escritor que divide seu tempo entre Chicago, Los Angeles e Nova York.
Traduzido do inglês por Renata Ribeiro da Silva.
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