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Kiluanji Kia Henda

Uma nova série fotográfica de Kiluanji Kia Henda sobre a urbanização de Angola

A New Photo Series by Kiluanji Kia Henda Tackles Angola’s Urbanization

Kiluanji Kia Henda, Concreto Blues, 2019. Vista da instalação no espaço Jahmek Contemporary Art. Cortesia do artista e da galeria Jahmek Contemporary Art.

10 Junho 2019

Revista América Latina

Palavras Ludmila Böse

3 min de leitura

“É a partir do corpo, não da mente, que questões surgem e são exploradas.” Este é um excerto de The Darker Side of Western Modernity (O lado mais escuro da modernidade ocidental, 2011), de Walter Mignolo, que Kiluanji Kia Henda evoca em sua última série de fotografias. O objetivo da série é expor a exclusão urbana e o esforço de expandir a urbanização de Luanda desde os anos de boom econômico de Angola – proclamado como “progresso, desenvolvimento, crescimento”. A expansão não só excluiu a maioria da população urbana, como a transformou propositalmente em um ser que é “chamado perpetuamente a se reconfigurar em relação aos artefatos da época”.

A exposição mostra o corpo que não é levado em consideração, ao abordar a relação de aprisionamento entre a maioria da população de Luanda e o tijolo de concreto bruto – elemento penetrante de suas expansões –, que juntos são interpretados como um assunto a ser excluído e um problema a ser resolvido pela urbanização moderna.

Kiluanji Kia Henda, Concreto Blues, 2019. Installation view at Jahmek Contemporary Art. Courtesy the artist and Jahmek Contemporary Art.

Kiluanji Kia Henda, Concreto Blues, 2019. Installation view at Jahmek Contemporary Art. Courtesy the artist and Jahmek Contemporary Art.

Este não é um caso categórico de alienação urbana. O artista apresenta um corpo cuja existência sempre foi afastada às franjas da cidade. Há uma história por trás desse corpo; sua criação como sujeito excluído faz parte do legado da urbanização colonial perpetrada por escolhas atuais do desenvolvimento moderno. A contínua marginalização desse corpo cria uma existência em relação a seu ambiente apenas na medida em que é capaz de assumir qualquer forma de adaptação e sobrevivência à montagem vertiginosa de novos ambientes urbanos, ricos ou pobres.

Na sua história de exclusão, esse corpo é aprisionado pelo desejo de ser incluído. Mas, “ao carecer de uma essência própria para proteger e salvaguardar”, desmorona e degrada em conteúdo; em compensação, o tijolo de concreto bruto é oferecido para construir a forma desse desejo.

O tijolo de concreto bruto é o leitmotiv da exposição e o ponto crucial da urbanização de Luanda. De um lado, as paredes que ele ergue são louvadas como uma conquista, como um progresso autoevidente. Por outro lado, é um mimetismo que nos condena ao “aprendizado para a vida toda” de conceitos que continuamos a “não entender direito”.

Kiluanji Kia Henda, Concreto Blues, 2019. Installation view at Jahmek Contemporary Art. Courtesy the artist and Jahmek Contemporary Art.

Kiluanji Kia Henda, Concreto Blues, 2019. Installation view at Jahmek Contemporary Art. Courtesy the artist and Jahmek Contemporary Art.

O resultado é o corpo fragmentado, cujo valor não se conforma às normas do mercado, para o qual a humanidade é considerada supérflua e de quem é inexoravelmente exigido fluxo, para ajustar-se, tornar-se outro.

Concreto Blues documenta nosso próprio processo desumano de atender às demandas da modernidade, questionando a concepção e a construção de uma cidade em rápida expansão que parece ser construída para alguém que não nós mesmos. Isso leva a uma profunda reflexão sobre nosso próprio conceito de cidade e o que significa para nós sermos urbanos – além do tijolo de concreto bruto.

Podemos ter muito o que falar sobre o estado de nossas cidades africanas, mas parece que são nossas cidades que falam extensivamente sobre o estado de nós mesmos.

Concreto Blues, de Kiluanji Kia Henda, está em exibição no espaço Jahmek Contemporary Art em Luanda, Angola, até 1º de junho de 2019.

Ludmila Böse é uma escritora de Luanda, Angola. Colaborou com o programa educativo e com textos curatoriais para a exposição “A Sul. O Sombreiro” (2016/2017), da artista que vive em Angola Iris Buchholz Chocolate, com a qual fundou o Projeto Lugânzi, com o foco em opções decoloniais. É apoiadora da filosofia africana contemporânea e segue de perto discursos latino-americanos sobre a modernidade, colonialidade e decolonialidade. Böse participou do Programa de Tutoria e do Workshop de Escrita Crítica promovido pela C& em Luanda em 2018, com apoio da Ford Foundation.

Traduzido do inglês por Raphael Daibert.

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