Macuxi Jaider Esbell: Uma vida indígena levada pelo extrativismo epistêmico

Jaider Esbell, Maikan e Tukui (Raposas e Beija-flores), 2020. Acrílica e caneta posca sobre tela, 100 x 75 cm. Foto: Filipe Berndt / Galeria Millan
A vida e a obra de Jaider Esbell continuam marcando profundamente a arte contemporânea brasileira com seu legado indígena “artivista”, mesmo depois de seu falecimento prematuro. Com uma nota de Denilson Baniwa, este texto relembra o artista e questiona o custo da visibilidade em um sistema que continua consumindo corpos e epistemes indígenas.
Macuxi Jaider Esbell faleceu voluntariamente aos 41 anos em 2021. Ele era um artista, escritor, curador e ativista brasileiro de destaque, pertencente ao povo Macuxi, um dos grupos indígenas de Roraima, na região norte da Amazônia brasileira. Sua obra estava profundamente engajada em temas como decolonialidade, cosmologia e direitos indígenas, mesclando herança cultural com ativismo político.
Esbell descrevia sua prática como “artivismo” - a fusão entre arte e ativismo voltada à defesa dos direitos indígenas e da justiça ambiental. Sua produção multidisciplinar incluía pintura, escrita, performance e curadoria, frequentemente inspirada na mitologia Macuxi. Em suas obras, abordava a destruição ambiental e o extrativismo, os saberes espirituais e mitológicos dos Macuxi e de outros povos originários, bem como as cosmologias indígenas enquanto resistência às epistemologias ocidentais. Um de seus projetos mais conhecidos é a série A guerra dos Kanaimés, que reinterpreta espíritos tradicionais para comentar as lutas contemporâneas enfrentadas pelas comunidades indígenas.
Jaider foi uma força fundamental na inclusão de perspectivas indígenas no circuito da arte contemporânea no Brasil. Em 2021, ele foi curador da mostra Moquém_Surárî: arte indígena contemporânea, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), uma das primeiras grandes exposições institucionais no país com este enfoque, reunindo 34 artistas de origens diversas. No mesmo ano, participou como artista da 34ª Bienal de São Paulo. Também criou e dirigiu a Galeria Jaider Esbell de Arte Indígena Contemporânea, em Boa Vista, um espaço dedicado à valorização de artistas indígenas de todo o Brasil.

Jaider Esbell, Mereme’ - A origem do arco-íris e seus mistérios, 2021. Acrílica e caneta posca sobre tela, 110 x 160 cm. Foto: Filipe Berndt / Galeria Millan
Em 2 de novembro de 2021, Jaider foi encontrado sem vida em seu apartamento em São Paulo enquanto participava da Bienal. Sua morte ocorreu em um momento de grande reconhecimento profissional e sob uma carga de trabalho intensa. Para a 34ª Bienal de São Paulo - Faz escuro mas eu canto - Jaider apresentou, não uma, não duas, mas três obras: Guerra dos Kanaimés: série vívida de pinturas que retratam espíritos ancestrais (kanaimés) envolvidos em lutas contemporâneas, refletindo a resistência Macuxi pela terra e pela cultura; Carta ao velho mundo: intervenção em um livro de história da arte europeia, onde sobrepôs grafismos indígenas e comentários críticos, desafiando narrativas coloniais; e Entidades: uma escultura inflável de 17 metros em forma de serpentes, instalada no Parque Ibirapuera, simbolizando as forças de transformação da cosmologia Macuxi, em oposição à estátua do invasor português Pedro Álvares Cabral.
Em março de 2021, realizou sua primeira individual em São Paulo, Apresentação: Ruku, na Galeria Millan.
A carga do trabalho de Jaider me faz pensar em um texto publicado na Hyperallergic, onde o artista estadunidense Damien Davis questiona se a visibilidade negra não é, em si, uma commodity, pelo modo como é valorada, enquanto for conveniente, e abandonada, se tomar “demasiado” espaço. Pois em relação à visibilidade indígena, essa pergunta também se encaixa, e bem demais. O extrativismo epistêmico capitalista não parece ter limites, e só nos deparamos com sua voracidade quando este mesmo extrativismo rouba vidas das nossas comunidades artísticas.

Jaider Esbell, A descida do pajé Jenipapo do reino das medicinas, 2021. Acrílica e caneta Posca sobre tela, 112 x 160 cm. Foto: Filipe Berndt / Galeria Millan
Na semana de sua morte, seu grande amigo e artista Denilson Baniwa escreveu palavras contundentes sobre as pressões enfrentadas na busca por reconhecimento, comparando esse percurso a uma forma de cativeiro, em que artistas indígenas são celebrados e, ao mesmo tempo, consumidos pelas exigências institucionais. Com a permissão de Denilson, publicamos a nota completa abaixo:
Olá,
Espero que esteja firme, mesmo nestes tempos difíceis por que passamos.
Como deve saber, esta semana fomos surpreendidos pelo encantamento de Jaider Esbell.
Desde que eu e ele nos encontramos neste mundo, vivemos e construímos juntos caminhos que foram, penso, importantes para a cena que se nota hoje.
Ele foi um amigo a quem eu chamava de “maninho”, modo carinhoso de chamar irmão na região onde nasci. Como irmão, nos amamos, brigamos, discutimos, brincamos, viajamos juntos pelo calor e frio do mundo, rimos, choramos, “bagunçamos o coreto” como dizem por aqui, ficamos sem nos falar, voltamos a nos falar, trabalhamos, pulamos em muitos rios e mares, concordamos com muita coisa, discordamos de outras tantas coisas, mas em uma coisa éramos incorruptíveis: no desejo de construir uma arte, na qualpessoas indígenas pudessem ter voz ativa e chances de, quem sabe, chegar ao topo, lugar onde nunca estivemos antes. Jaider chegou a esse lugar, e o que para os brancos é considerado sucesso (ou “a melhor fase de sua carreira”, como li em matérias de jornais), para nós dois esse fake-sucesso-branco foi dia a dia tornando-se um peso. Infelizmente, ficou pesado demais para ele, mas poderia ter sido para qualquer um de nós artistas indígenas. A cobrança de respostas para salvar a arte, a pressão por não falhar em nossa caminhada ou com nossos parentes indígenas, a ininterrupta fome de quem nos vê como uma novidade devorável no mercado, tudo isso que é considerado sucesso. E o auge da carreira é um muro que nos cerca e nos tira do que é mais importante: uma vida saudável.
No momento em que sentimos as mãos do mundo ocidental nos puxar, eu me retirei para desacelerar e pensar sobre o que estava acontecendo. Primeiro foram as redes sociais, às quais eu voltava repetidamente e contra as quais me rebelava pois me ligavam, mandavam mensagens como uma exigência de que era preciso estar online o tempo todo e, pior, disponível o tempo todo. Depois, deletei meu número e comprei um número novo de celular só para amigos ou para pessoas a quem eu quisesse dar atenção. Poucas semanas atrás, deletei de novo minhas redes sociais, a fim de sair dessa pressão de estar sempre disponível e ser obrigado a responder como “descolonizar o mundo”. Como se isso fosse nossa responsabilidade: salvar o mundo sozinhos. Como se não fosse uma responsabilidade de todos. Ah, não! Nós somos obrigados a salvar um mundo que nunca nos quis, mas, no momento em que precisam, recorrem a nós e exigem que estejamos à disposição. Demorou trinta e dois anos para o mundo me dar atenção. Eu sei que muitos dos abraços e beijos hoje só fazem parte da etiqueta social dos brancos. Antes disso, só recebíamos desprezo desse mundo. Mas este sangue indígena que guarda rancor e, ao mesmo tempo, quer amar o mundo, nos faz aceitar essa etiqueta branca.
Estive com Jaider na semana passada. Conversamos pouco, pois nossas caixas de e-mails e de mensagens estavam lotadas, nossas agendas estavam lotadas. Mesmo todo dia juntos por uma semana inteira, do café da manhã à hora de dormir, conversamos pouco. E, nas poucas conversas, nossas reclamações eram as mesmas: a vontade de socar a cara da próxima pessoa que nos pedisse uma reunião online. Jaider estava cansado. Eu estou cansado. Nós estamos cansados.
O que é postado nas redes sociais não representa a dor pela qual estamos passando diariamente. O Jaider Esbell, fora do online, não era o postado. O Denilson Baniwa, fora do online, não é de longe o que vocês veem em lives. Quantas lives eu fiz, forçando-me aparentar estar bem, para não deixar ninguém preocupado. Quantas lives eu literalmente fiz doente, com febre, com dor. Mas isso não era postado. Eu – e ,com certeza, o Jaider também – nãofazia isso para agradar branco ou ficar famoso. O motivo principal era construir um caminho para outros indígenas, construir possibilidades para os nossos. Éramos o espelho para quem é indígena e ainda sonha em ser artista ou qualquer coisa diferente da realidade horrorosa em que jovens e crianças indígenas vivem hoje. Nós nos forçamos a estar disponíveis para um mundo que, como Baniwa, acredito ser para aqueles que ainda hão de nascer.
Mas isso pesa. Deste modo, peço, com muito respeito ao Jaider e aos artistas indígenas passados-presentes-futuros, que cuidemos que esse caminho aberto por nós nunca seja interditado, nunca deixe o mato cerrar. Que nós, eu e você, limpemos o caminho sempre e, num futuro próximo, seja mais fácil andar por ele. Cuidemos da memória de Jaider Esbell. E, principalmente, cuidemos para que seja mais leve o caminhar, o nosso e o de outras pessoas.
Pois entendendo que, se sucesso e topo – pelo que tanto lutamos – resultam em tragédia, sinto que preciso pensar ainda mais sobre que tipo de arte indígena devo construir. E, se a recepção que o mundo da arte ocidental nos ofereceu levou um de nós ao grave fim, preciso pensar ainda mais sobre que tipo de relação quero manter com essa arte.
Eu vou desacelerar ainda mais, até o ponto que seja um cooper e não um triathlon. Meu trabalho seguirá em honra a Jaider Esbell, assim como era em memória de tantos outros parentes indígenas antes de mim. Se é pela arte que resistiremos, que seja por ela. Mas de minha parte, não será para satisfazer a fome de nenhum glutão da arte.
Com carinho e admiração,
Denilson Baniwa
Sobre o autor
Will Furtado
Will Furtado é editore-chefe da C&AL.
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