Manuel Tzoc: a arte como poesia corporal e relacional

Manuel Tzoc, Moler el olvido/ Amasar la sangre, 2021. Foto: Sandra Sebastian. Cortesia do artista.
25 Fevereiro 2026
Revista América Latina
Palavras Alejandro Ortiz López
Tradução Jess Oliveira
6 min de leitura
Na prática do artista guatemalteco, a arte se estende para além da autoria individual e se configura como processos comunitários e ancestrais que articulam experiências indígenas e cuir.
Que tipo de relações se desenvolvem quando a poesia se faz com o corpo? Na obra de Manuel Tzoc, essa questão é respondida por meio de uma prática performativa que entende a corporalidade como espaço de encontro que ultrapassa tanto o artista quanto o público que presencia suas performances. É na dimensão processual de suas ações que se tece uma articulação entre presença física, objetos impregnados de memória e um contexto histórico marcado pela violência colonial.
Em nossa conversa na Cidade da Guatemala, em dezembro de 2025, o artista me contou que, desde a gestação de suas propostas, concebe imagens corporais nas quais integra delírio, devaneio e lucidez como formas de oposição à narrativa heteropatriarcal e racista do país. Por meio dessas cenas, Tzoc ativa uma busca pelas feridas históricas e reimagina seu próprio corpo como ferramenta poética capaz de interpelar, por exemplo, quais identidades importam e quais foram sistematicamente excluídas das narrativas oficiais, como ocorre com as vidas indígenas na Guatemala.

Manuel Tzoc, Ativação da performance Piel na Cidade da Guatemala. Foto: Esteban Biba. Cortesia do artista.
A interrupção da consciência constitui uma das investigações centrais da obra performativa de Manuel. Seus trabalhos nesse formato se articulam em torno dos conceitos de origem, ferida, memória e racismo. A partir dessa temáticas, vinculadas à dor e à potência humana, o artista cria imagens com o próprio corpo para tornar visíveis e ressignificar tais categorias. Com isso, propõe uma reconfiguração do trauma histórico que também abarca sua experiência indígena e cuir. “O trabalho do poeta está em constante busca da ferida”, afirma Tzoc, “mas também da restauração emocional e da cura”.
Esse modo de reparar a ferida por meio do ofício poético pode ser identificado nas primeiras performances de Tzoc, como Piel y Memoria en blanco (ambas de 2016). Nelas, interessa-lhe a relação entre memória afetiva e dor histórica, o que o leva a elaborar ações que se relacionam com a lembrança e mobilizam a corporalidade de sua mãe e de seu pai. Em 2016, ele apresenta a primeira dessas performances diante do Palacio Nacional de la Cultura da Guatemala, sede a partir da qual se exerceu o poder de Estado responsável por diversos genocídios contra a população maia, particularmente do povo ixil. Em Piel*, o artista veste um traje que o cobre por completo, e que foi confeccionado a partir de um corte jaspeado usado por sua mãe, Micaela Bucup. O tecido sobre a carne de Tzoc ativa um ritual no qual seu corpo, envolto pela memória materna, se inscreve afetivamente diante de um edifício onde se estruturou um Estado colonial. A performance propõe, assim, uma imagem restauradora. Apesar da violência histórica que atravessou comunidades indígenas na Guatemala, o corpo de Tzoc conjura um anacronismo visual ao se posicionar diante de uma construção assombrada pelo fantasma de perpetradores de genocídios no país.

Manuel Tzoc, Apresentação de Memoria en blanco, 2016. Foto: Fabrizio Quemé. Cortesia do artista.
Em Memoria en blanco (2016), Manuel convoca seu pai, Gerónimo Ricardo Tzoc Puac, a imaginar outra forma de comunicação, submetendo-se a um exercício desconfortável, porém libertador. Realizada publicamente na galeria Proyecto Poporopo, a performance coloca pai e filho frente a frente, sentados e em silêncio. O ritual se ativa à medida que ambos revolvem suas memórias para se encontrarem um no outro, no passado, atravessando desde cenas ternas e cotidianas até episódios mais problemáticos e violentas de sua relação. O artista propõe ao pai revisitar momentos específicos, como a noite em que ele chegou com o rosto ensanguentado; o abraço dado em Manuel ao saber que o filho era homossexual; a vez que retornou embriagado para casa, entre outros. Com esse gesto, ambos desarmam a comunicação afetiva entre seus corpos.
Para além da co-construção da performance com outras corporalidades, a prática de Tzoc se adensa ao refletir sobre a complexidade dos corpos nas territorialidades da América. La refundación de Abya Yala (2016), ação apresentada na Guatemala e no Chile com o artista Rodrigo Arenas-Carter, evoca um encontro a partir das experiências k’iche’ e mapuche. A performance mobiliza elementos desses povos, combinados a gestos em que ambos performers percorrem, sujam e compartilham seus corpos. Com esse ato, reconfiguram a cartografia política, erótica e sexual de Abya Yala. Após rasgar um antigo mapa da América, despem-se de suas roupas ocidentais para revelar indumentárias originárias. Em seguida, traçam com tinta, na pele um do outro, um mapa de Abya Yala, culminando na fricção de seus pênis junto a uma mistura de barro feita com terras k’iche’ e mapuche, propondo uma ponte carnal.
Outros tipos de relações materiais emergem na obra de Tzoc. Moler el olvido / Amasar la sangre (2021), por exemplo, é uma proposta na qual o performer se coloca sobre uma tábua de moer milho, segurando uma pedra com a frase que dá título à ação. O gesto posiciona a pedra como elemento ancestral e também reivindica o sobrenome do artista, “Tzoc”, cuja raíz deriva do verbo k’iche’ tzok'ï'k’, palavra que remete ao “ato de talhar ou picar pedra”.

Manuel Tzoc, La Refundación de Abya Yala, 2016. Foto: Lilo Euler Coy. Cortesia do artista.
Em diálogo com outros saberes, a prática performativa do artista se expande ao convocar pessoas artesãs, como as que trabalham com bordado. Em Desatando a Gucumatz (2024), Tzoc reuniudiversas faixas (pas) pertencentes a mulheres de sua família. Unidas, as peças emulam um enorme cordão umbilical, com o título da obra bordado. Para o artista, o processo de criação dessa peça foi simbólico, na reciprocidade entre o conhecimento técnico de tecelãs e o ofício subjetivo do artista. Esse processo pode ser compreendido à luz do que o pedagogo Paulo Freire chamou de “construção dialógica”, em que o saber não é depositado de forma hierárquica, mas construído em relação. O conhecimento emerge no diálogo, e não do poder de um sobre o outro.
Para Manuel Tzoc, cujo trabalho artístico se iniciou na poesia escrita, chegar à performance representou outra forma de experimentar sua presença física. Após uma década imerso nessa prática e diante de outras experiências, vidas e objetos, esse caminho tornou-se também um modo de comunicação no qual as imagens poéticas operam como vozes capazes de articular o que ainda não foi historicamente assimilado, como as experiências indígenas e cuir que se encarnam em sua trajetória. Por meio de suas propostas relacionais, Tzoc desmonta a ideia de que uma obra de arte pertence a uma única pessoa. Ao contrário, revela um processo vivo e complexo no qual dialogam múltiplos corpos e identidades, bem como processos comunitários e ancestrais que antecedem os próprios fundamentos de sua obra.
* José Efraín Ríos Montt foi militar e chefe de Estado da Guatemala entre 1982 e 1983. Em 2013, foi condenado por genocídio e crimes contra a humanidade.
Sobre o autor
Alejandro Ortiz López
Seu trabalho abrange pesquisa cultural e o desenvolvimento de exercícios curatoriais, com interesse na construção de narrativas sobre identidade, território, dissidências e práticas de imaginação na Guatemala.
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