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“Sabemos muito pouco sobre a cultura africana contemporânea”

“We Know Very Little About Contemporary African Culture”

Cortesia Otro Sur / MUICA

C&AL: Qual foi a motivação para conceber uma mostra de cinema africano na Colômbia?

Salym Fayad: A Mostra Itinerante de Cinema Africano (MUICA) surge de diferentes vertentes e da minha própria experiência de viver e trabalhar na África do Sul e outros países africanos. Há uma motivação estética: muitas expressões artísticas do continente africano estão desafiando os parâmetros de gêneros tradicionais. Outra motivação é buscar conhecer um pouco desse “outro Sul”. Não em vão a organização com a qual criamos MUICA se chamaFundação Otro Sur. A Colômbia compartilha muitas coisas com esse outro Sul Global, em nível social, cultural e também histórico. Mesmo que os contextos em cada país do continente africano sejam distintos, alguns deles também vêm de uma história colonial semelhante – alguns países africanos têm uma história com passado traumático ou de conflito armado, como na Colômbia.

A ideia é conectar os países através desse diálogo cultural, para conhecermos e sabermos quais projetos culturais existem em que lugar. Há também uma motivação histórica e uma conexão em nível racial, mesmo que eu não goste muito de usar essa palavra. Na Colômbia existe uma população de descendência africana muito grande, mas sabemos muito pouco sobre a cultura africana contemporânea.

C&AL: Na sua opinião, qual é importância da MUICA para o país?

SF: MUICA começou como um experimento, não existia na Colômbia uma plataforma como essa. Não era a primeira vez que se exibia cinema africano na Colômbia, nunca, porém, se havia feito nessa escala. Foi muito gratificante ver que pessoas de todos os contextos e origens se interessam pelos filmes. Em particular a reação de pessoas afrodescendentes foi muito positiva.

https://www.youtube.com/watch?v=EE4_-QAA9_4&feature=youtu.be
Muica 2019. Cortesia Otro Sur / MUICA

Com a segunda edição da MUICA, em 2017, trouxemos o diretor Jean-Pierre Becolo, um realizador camaronês de vanguarda que está fazendo ficção científica e cinema experimental. Foi muito inspirador ouvi-lo interagir com comunidades afro na Colômbia, falando de narrativas pós-coloniais, da situação política nos Camarões e da relação com o passado colonial francês e com todo o resto da comunidade regional na África Ocidental. Jean-Pierre Becolo começou até a trabalhar com realizadores colombianos para montar suas próprias produções com artistas afro-colombianos de Chocó, Valle del Cauca, Palenque, Cartagena e Providencia.

C&AL: Que responsabilidade tem MUICA na hora de mostrar o continente africano, com todas suas complexidades, por meio do cinema?

SF: A ambição de MUICA é abrir uma janela para as realidades complexas da África, as quais muitas vezes são percebidas, na Colômbia e no resto do mundo, de forma reducionista e estereotipada. MUICA quer ser, além de uma plataforma para o cinema, uma plataforma para diferentes expressões artísticas de várias partes da África. Vale a pena dizer que a África é um continente indefinível: é composta por 54 países, diferentes regiões, algumas delas com centenas de idiomas. A Nigéria tem 500 línguas e a África do Sul 11 línguas oficiais, para dar um exemplo. Então, reduzir isso a um nome, a uma palavra, é absurdo.

Nossa responsabilidade é colocar sobre a mesa produtos audiovisuais que passem por nosso filtro curatorial, resultado da experiência que temos tido ao viver e trabalhar na África. Nós tentamos que a curadoria de filmes se relacione com o contexto colombiano, para que o diálogo seja real, para que os espectadores não sintam que estão vendo algo hiper desconhecido, que não tem nada que ver com eles, mas que percebam semelhanças.

“Stories of our lives” recounts five stories based on real experiences from the LGBTQ community Kenya where homosexuality is illegal. Director: Jim Chuchu, Kenya, 2014. Courtesy of Otro Sur / MUICA

“Stories of our lives” recounts five stories based on real experiences from the LGBTQ community Kenya where homosexuality is illegal. Director: Jim Chuchu, Kenya, 2014. Courtesy of Otro Sur / MUICA

C&AL: Nas três seções da programação do festival, Hecho en África, Diáspora e Otras Miradas, percebe-se um panorama cinematográfico muito diverso. Quais foram os critérios para escolher os 21 filmes do festival de 2019?

SF: As três seções sintetizam alguns dos pontos que queremos abordar. A seção Hecho en África privilegia filmes produzidos e contados por realizadores africanos sobre diferentes regiões do continente e uma variedade de temas que consideramos relevantes. São filmes de alta qualidade, sendo a maioria produções recentes. São exibidos pela primeira vez na Colômbia e tratam de diferentes temas: questões históricas, de resistência social e sobre riscos criativos. Otras Miradas é uma seção de realizadores não africanos que contam histórias africanas muito relevantes ao público, feitas com respeito, sem paternalismo nem condescendência. Diáspora é uma plataforma para as vozes da afrodescendência no mundo, sobre como a africanidade é reinterpretada pela Diáspora e por pessoas que estão ou em exílio ou afrodescendentes que nunca estiveram na África, como é o caso da maioria da população colombiana. Além dos filmes, este ano temos uma exposição fotográfica de antigos cinemas em Angola, construídos durante a época colonial e que são um documento arquitetônico muito interessante. Há também, por outro lado, uma mostra de realidade virtual.

C&AL: Em tempos em que o cinema, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, perde hegemonia cultural, que importância tem o cinema na África?

SF: Quando falamos de cinema na África, estamos falando de uma ferramenta que teve um papel social e político muito forte desde sua origem. Os primeiros filmes africanos foram produzidos em um contexto colonial ou logo quando os países estavam conseguindo a independência, entre os anos 60 e 70 do século passado. Mesmo que se fizessem filmes de ficção, era impossível desligar a ferramenta narrativa da realidade imediata. Hoje existem filmes de países africanos que podem ter altos orçamentos, como por exemplo os da África do Sul, do Quênia e da Nigéria, onde se fazem produções muito parecidas com as ocidentais, mas mesmo assim, o cinema não perdeu seu poder social.

Courtesy of Otro Sur / MUICA

Courtesy of Otro Sur / MUICA

C&AL: Como a cena cinematográfica africana se desenvolve em direção ao futuro?

SF: Tenho percebido uma evolução em nível técnico e de orçamento. Paradoxalmente, o financiamento vem, em grande maioria, do Ocidente. Existe também um desenvolvimento nas histórias: há cada vez mais narrativas de vanguarda que buscam sair dos gêneros convencionais e romper com os estereótipos que existem sobre o continente. Além disso, há agora mais cinemas na África do que antes e existe uma maior projeção internacional em festivais de cinema africano, como o Festival de Cinema Africano de Nova York (AFF), a existência da MUICA na Colômbia e o Festival Wallay de cinema africano em Barcelona.

C&AL: Em relação ao cinema na América Latina: qual a situação das comunidades afro e suas histórias?

SF: Sinto que o cinema sobre temáticas afro ainda está muito cru e, sobretudo, precisa de apoio e projeção internacional. Entre os programadores latino-americanos de cinema há com frequência um vazio, olhares perdidos, quando se trata de programar cinema afro-latino-americano. Existem alguns realizadores brasileiros, outros antilhanos que têm projeção internacional. Na Colômbia temos, como exemplo, Jhonny Hendrix Hinestroza e seu filme Chocó, uma referência do cinema afro no país. Expor o público colombiano a esse tipo de produtos de alta qualidade e criatividade pode ser inspirador, para que se produzam mais filmes na Colômbia.

MUICA 2019 acontece em Cali: de 2 a 5 de maio; Buenaventura: de 7 a 10 de maio; em Cartagena: de 14 a 18 de maio e em Bogotá: de 23 a 29 de maio.

Entrevista realizada por Ana Luisa González, jornalista colombiana.

Traduzido do espanhol por Raphael Daibert.

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