PesquisarOportunidadesEventosSobre a C&Hubs
C&
Revistas
Projetos
Educação
Comunidade
Conversas

“Viver uma vida nômade tem sido a minha escolha”

“It Has Been My Choice To Live A Nomadic Life”

Paola Torres Núñez del Prado, Corrupted Structure II (Andean) [Estrutura corrompida II (Andino)] , 2015. Cortesia da artista.

17 Junho 2019

Revista América Latina

Palavras Raquel Villar-Pérez

6 min de leitura

Paola Torres Núñez del Prado é uma artista de origem peruana que trabalha entre Lima e Estocolmo. Ela realiza intervenções em tecidos e padrões peruanos tradicionais usando tecnologia. Seu trabalho investiga noções ligadas à hermenêutica, como interpretação, tradução e distorção. No contexto de um estado atual de “abertura” no Ocidente às práticas artísticas e estéticas não ocidentais, nós batemos um papo com Paola sobre sua carreira como artista, seu trabalho e sua posição no mundo.

C&AL: Você possui uma longa carreira artística, quando decidiu formalizar sua carreira como artista?

PTN: Para mim a questão não era saber o que eu queria ser, mas, pelo contrário, reconhecer o que eu era e entrar em acordo com isso. Eu tinha seis anos de idade quando, pela primeira vez, me imaginei como pintora. Quando criança, desenhar era a maneira de manifestar meus pensamentos; quando adolescente, competições de arte eram a maneira de me testar; acho que a ruptura aconteceu quando me mudei para Nova York em 2003 para estudar: o que essa nova escola e essa nova cidade ofereceram-me contrastava bastante com a minha experiência de ter crescido em Lima.

Acredito que a formalização da minha carreira ocorreu depois que me formei. O mercado extremamente consumista “contaminando” tudo em Nova York foi avassalador, então retornei ao Peru, consegui um trabalho como editora de vídeo, mas acabei deixando-o e mudei-me para o sul. Passei alguns anos atravessando outro conflito pessoal que envolveu uma depressão profunda. Por fim, concluí que, se fosse me dedicar ao que quer que eu quisesse dizer, seria melhor encontrar o que valesse a pena falar além da minha experiência individual. Nesse sentido, vejo a arte como inerentemente política.

Paola Torres Núñez del Prado, from Tender Room, 2018. Courtesy of the artist.

Paola Torres Núñez del Prado, from Tender Room, 2018. Courtesy of the artist.

C&AL: O que fez você se decidir por se tornar uma artista visual?

PTN: Como eu disse antes, no meu caso, não era uma questão de tornar-me, mas de aceitar o que eu era: ser uma “artista” parecia ao mesmo tempo algo mimado e grandioso, como um tipo de viagem (egoica) que poderia resultar ou no alcance de uma clarividência iluminada ou nos buracos mais confusos e incompreensíveis do eu. Desde cedo na vida experimentei o ser artista mais como uma imposição do que uma escolha; isso foi por vezes claustrofóbico, mas ainda assim, fazer arte era sobretudo uma cura para mim. Eu sabia também que, se fosse embarcar seriamente nesse tipo de processo criativo, o privilégio de fazer arte que brotasse das demandas do eu viria, contraditoriamente, como uma grande responsabilidade. Acho que a consciência dessa responsabilidade tem, sem dúvida, moldado minha prática artística e permitido me colocar mentalmente mais no papel de “mediadora”.

C&AL: Suas obras misturam arte e tecnologia. Você pode nos dizer mais sobre de onde vem seu interesse em combinar as duas coisas?

PTN: A maioria das minhas obras tendem a ter elementos analógicos e digitais, e com analógico eu também me refiro à ideia tradicional de “artesanato”. Acredito que essa tendência de usar as duas coisas nasceu, por um lado, da percepção que, num nível elementar, a tecnologia me permitia fazer obras que reagissem às pessoas e se alterassem para elas, já que as pessoas também interagem com os trabalhos. Por outro lado, isso surgiu por saber que eu poderia usar essa qualidade dupla, o material/artesanal/analógico versus o virtual/automatizado/digital, como uma maneira de criticar a hermenêutica implícita quando experimentamos arte hoje em dia, a ideia de que as obras de arte devem ser interpretadas/decodificadas, o legado inevitável da arte conceitual.

Paola Torres Núñez del Prado, SS - Wipe B, 2018 (Interactive Series). Courtesy of the artist.

Paola Torres Núñez del Prado, SS - Wipe B, 2018 (Interactive Series). Courtesy of the artist.

C&AL: Você há anos tem vivido e estudado fora do seu país de origem, o Peru, primeiro em Nova York e atualmente em Estocolmo. Você poderia ser considerada o que chamam de “artista da diáspora”. Você poderia falar mais sobre seus pontos de vista e posicionamento em relação aos debates sobre migração e diáspora, particularmente quando abordados no mundo da arte?

PTN: Para ser sincera, nunca me considerei “diaspórica”, viver uma vida nômade tem sido minha escolha. O fato de que eu poderia ser rotulada como “artista migrante” na Suécia, onde vivo atualmente, faz-me sentir como se eu devesse agir ou pensar de certa maneira de acordo com minha condição (de migrante) e que todas as minhas dúvidas e preocupações seriam compreendidas dentro dessa moldura. Isso nunca foi uma questão em Nova York, já que a cidade é etnicamente diversa. Contudo devo admitir que senti certa pressão com relação à interpretação do meu trabalho na Suécia: tão logo ele incluiu referências aos estilos e artesanatos tradicionais do Peru, despertou certo interesse na cena artística sueca, com sorte não pela exotização ou pelo imperativo de “cobrir a cota da diversidade”, mas por estar oferecendo algo diferente. Embora, sendo sincera, sinta que meu trabalho é visto como uma manifestação de um anseio que obviamente deveria corresponder ao meu status atual de viver noutro lugar “ao qual não pertenço”.

C&AL: Como isso se reflete no seu trabalho, se isso se reflete de algum modo?

PTN: Lidar com o assunto da migração neste novo contexto pode ser percebido como uma imposição; desse modo, quando isso começou a se refletir no meu trabalho, havia algum cinismo. Quando me mudei para a Suécia, minha perspectiva subjetiva me fez ver como artistas estrangeiros sentiam a necessidade de se encaixar no papel do “artista migrante discutindo questões da migração”, o qual a cena e o mercado de arte suecos pareciam desejar para artistas não suecos.

O fato é que, por um lado, essas forças que te empurram para o termo genérico “diaspórico” ou “migrante” podem ser rejeitadas tão intensamente quanto qualquer outra classificação imposta, mas, por outro lado, é difícil negar a relevância e a urgência de se discutir o assunto. Dessa maneira, ainda que recentemente questões relacionadas à migração tenham começado a permear algumas de minhas obras, estou ciente de que isso pode fazer com que a identidade do sujeito seja reduzida àquela (e somente àquela) do migrante e que, como tal, isso pode na verdade silenciar outros elementos importantes e reconfigurar os significados do meu trabalho.

Paola Torres Núñez del Prado, Corrupted Structure IV (Modern Mayan), 2018. Courtesy of the artist.

Paola Torres Núñez del Prado, Corrupted Structure IV (Modern Mayan), 2018. Courtesy of the artist.

C&AL: Em que você está trabalhando no momento, e onde nós poderemos ver seu trabalho no futuro próximo?

PTN: No momento estou em Lima com minha família. Estou exibindo meu trabalho num lugar chamado Socorro Polivalente, um espaço independente sem fins lucrativos que me permite, literalmente, fazer o que quero. Tenho aprimorado três das minhas principais séries: Corrupted Structures [Estruturas corrompidas], bordados eletrônicos com aparência de erro técnico (glitch) que incorporam visualizações de sons; Textile Controllers [Controladores têxteis], tecidos inteligentes que funcionam como interface para controlar arquivos de som, e a série Wipes [Lenços]. Também iniciei uma nova série na qual trabalho com versões 3D dos Huacas, templos de adobe espalhados por toda a costa peruana. Na performance Tender Room [Sala terna], realizada no Museu de Arte Contemporânea de Lima em abril de 2019 e apresentada primeiramente em Estocolmo em 2018, abordo questões de vigilância, telepresença, migração e maternidade. Acho muito interessante como a recepção das obras muda dependendo dos países e dos contextos nos quais elas são apresentadas.

Entrevista feita por Raquel Villar-Pérez, curadora e ensaísta espanhola especializada em arte residente em Londres.

Traduzido do inglês por Luiz Rangel.

Leia mais de

Conversas

An art installation with red fabric banners displaying text hanging from a central pillar, anchored by stones on a bed of green plant material, in a gallery setting.

A representação dos desejos comunitários na obra de Jeff Cán Xicay

Abstract sculpture composed of multi-colored fabric-wrapped ropes and bundled forms, suspended against a white wall.

Retificando a ausência da América Latina nos debates sobre arte afrodiaspórica

I Am Monumental: The Power of African Roots

Sou monumental: o poder das raízes africanas

Leia mais de

Conversas

An art installation with red fabric banners displaying text hanging from a central pillar, anchored by stones on a bed of green plant material, in a gallery setting.

A representação dos desejos comunitários na obra de Jeff Cán Xicay

Abstract sculpture composed of multi-colored fabric-wrapped ropes and bundled forms, suspended against a white wall.

Retificando a ausência da América Latina nos debates sobre arte afrodiaspórica

I Am Monumental: The Power of African Roots

Sou monumental: o poder das raízes africanas