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Performance como ato de resistência

Performance as an act of resistance

Slam das Minas: seja heroína, seja marginal (documentário). Imagem: Juliana Santoros e Mylena Fantini.

Quando uma voz preta fala, há ancestralidade e luta aí contidas. E essa força vital diaspórica está presente nas performances dos “Slams das Minas”, poetry slams protagonizados por mulheres que acontecem desde 2015 em diversas localidades do Brasil. Esses slams reúnem a força e a sabedoria de mulheres periféricas, abrindo caminho para corpos negros, homossexuais, trans, travestis – todos forçosamente subalternizados.

Incorporações e evocações

A ação performática dos slams evoca a força ancestral de Xangô, orixá que fala com o corpo inteiro, senhor da palavra e do discurso. E as slammers, tal qual o deus iorubá, falam com o corpo todo em suas performances: uma vez que as opressões ocorrem a partir do controle e submissão dos corpos, as slammers se apoderam da palavra e de atos corporais criativos, a fim de negar a condição subalternizada na qual são sistematicamente colocadas.

Insurgidas a partir de produções textuais, as performances dos slams vão tomando forma durante a própria ação performativa. São atos evocativos de forças vitais e ancestrais, que se tornam presentes por meio da palavra posta em ação, bem como através de escolhas gestuais e movimentos corporais.

Embora o enunciado poético seja preconcebido na escrita, os slams incluem recursos que extrapolam o campo literário, envolvendo o entrecruzamento da poesia falada, artes cênicas, musicalidades, cenários, roupas e acessórios. E há também a participação do público, que atua com corpos e vozes autônomos, colocando-se como elemento transformativo essencial dessa arte performática.

Slam das Minas nas vozes das performers

Carol Dall Farra, Rool Cerqueira e Vic Sales representam aqui inúmeras mulheres que negaram, mais uma vez, o silenciamento. Essas performers são unânimes quando colocam os “Slams das Minas” como espaços de resistência, acolhimento e visibilidade.

Carol Dall Farra

MC Dall Farra é estudante de geografia na UFRJ, poeta, rapper e slammer de Duque de Caxias, Rio de Janeiro. Integra o coletivo Poetas Favelados e o Slam das Minas, que organizam ações poéticas em espaços públicos. Em suas músicas e poemas, aborda assuntos como a discriminação de gênero e classe. Sua primeira experiência como atriz foi em MC Jess (2018), um curta-metragem de ficção que narra a história de uma MC negra e sapatão e seu encontro com a poesia – vivências que se relacionam diretamente com a trajetória da própria Dall Farra.

https://youtu.be/DbQXy_jcCXE

Final do Slam das Minas RJ, 2017. Vídeo: Slam das Minas RJ.

“O Slam das Minas representa a materialização de um espaço de fala para mulheres e pessoas LBTQs, um lugar de acolhimento em meio a uma sociedade homofóbica e transfóbica. Logo, entendo o Slam das Minas como ferramenta de desconstrução de preconceitos e equipamento de fomento à cultura”, diz a slammer.

Rool Cerqueira

Rool Cerqueira, mulher negra, periférica e sapatão, integrante do Coletivo ZeferinaS e do projeto Baobás, ativista, bikuda (ativista e estudante do Quilombo educacional Instituto Cultural Steve Biko, que fica no bairro do Pelourinho, em Salvador), graduanda no bacharelado Interdisciplinar em arte (UFBA), residente de Cajazeiras, periferia de Salvador. Poeta marginal, atriz e slammer campeã da Slam das Minas BA 2017.

https://www.youtube.com/watch?v=nu3g_j4bNGc
Final do Slam das Minas BA, 2017. Vídeo: Slam das Minas BA.

“O Slam das Minas representa a libertação das vozes das ruas. É uma perfeita estratégia de subversão e enfrentamento das opressões sofridas pelas minorias, uma forma de sermos ouvidas e nos tornarmos representativas(os) para as(os) nossas(os) através da arte e da literatura, como um grande palco que mostra que produzimos literatura preta, favelada e de qualidade, que é umas das esperanças do meu povo sair da base”, afirma Rool Cerqueira.

Vic Sales

Vic Sales nasceu em São Paulo, cresceu no interior do estado e hoje reside na capital. É formada em Biblioteconomia pela UNESP. Arte-educadora, atuou no Centro Cultural da Juventude e em outras instituições. Como poeta e slammer, ministra oficinas e compete em slams. Fez parte do Coletivo DasPre e lançou, em 2017, o livro Um jazz pra duas e o zine Das águas. Como fotógrafa, participou da exposição Diafragma: luz, expressão no Instituto Ação Educativa.

https://youtu.be/DLGr3d7RMAs
Final do Slam das Minas SP, 2017. Vídeo: QuatroV.

“O Slam das Minas é, para mim, sinônimo de lar. É o lugar onde me sinto completamente à vontade para ler poesias não decoradas, para falar de amor e tudo mais. Para mim, o Slam das Minas é o espaço mais acolhedor da cena, um espaço de fato seguro, onde mulheres se ouvem e se protegem. Eu fiz grandes amigas durante as edições, mulheres que carregarei em meu peito por toda a vida. O primeiro cachê que recebi como poeta foi no Slam das Minas, antes disso achava impossível viver de poesia, nunca achei que as coisas que eu escrevia fossem interessantes ou que tocassem as pessoas, mas essa coletiva me deu o presente de ver minha poesia voando”, relata Vic Sales.

Cecília Floresta afrodescende, é escritora, candomblezeira & sapatão. Pesquisa narrativas e poéticas ancestrais iorubás e seus desdobramentos na Diáspora Negra contemporânea, lesbianidades e literaturas insurgentes. É autora de poemas crus (Editora Patuá, 2016).

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