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Regina José Galindo e a indústria das armas

Regina José Galindo and the Weapons Industry

Perspectiva do franco-atirador na obra de Galindo El Objectivo (O objetivo), 2017. Foto: Cortesia da autora

Jota Mombaça investiga como Galindo aponta para o entrelaçamento do aparato da arte e da guerra no contexto de um importante evento de arte

A imagem abaixo, pré-fabricada, foi encontrada por uma amiga que navegava pelo mapa de Kassel no aplicativo do Google Earth. Estou chamando-a de pré-fabricada porque, em Kassel, a arte e o poder militarizado estão mais intrincados do que se possa perceber à primeira vista. A Alemanha possui uma das maiores indústrias de armas do mundo e porque Kassel teve, no passado, um papel preponderante nessa economia – durante a chamada Segunda Guerra Mundial, a Henschel & Son, uma empresa da cidade que produzia equipamentos de transporte, prosperou ao fabricar os tanques de guerra Tiger I e II –, a ponto de essa imagem ter sido levantada pela minha amiga enquanto conversávamos sobre os dois trabalhos de Regina José Galindo na documenta 14 de Kassel.

Screenshot of the location 51°20’11.1″N 9°29’06.0″E in the Google Earth map of Kassel. Photo: Courtesy of Angela Olga

Screenshot of the location 51°20’11.1″N 9°29’06.0″E in the Google Earth map of Kassel. Photo: Courtesy of Angela Olga

Galindo é uma artista guatemalteca cujo trabalho está particularmente engajado com atualizações da necropolítica nas sociedades contemporâneas. Suas obras têm constantemente abordado e questionado a naturalização da morte, os rituais de genocídio (especialmente o feminicídio) e regimes armados. Em Kassel ela apresenta uma videoinstalação no piso térreo do Palais Bellevue e uma instalação performativa no segundo piso do Stadtmuseum.

O projeto no Stadtmusem se chama El Objectivo (O objetivo). Consiste de uma câmara branca com uma sala interna e um corredor externo com quatro pontos, a partir dos quais se pode ver o interior da câmara através da mira de quatro fuzis G36. O aspecto performativo tem a ver com a possibilidade de adentrar a câmara e escolher entre assumir a posição do alvo ou manusear o fuzil como um franco-atirador. A artista ativou a performance em diversas sessões ao se posicionar dentro da câmara como alvo especulativo da sede do público em jogar e olhar.

The sniper position in Galindo’s piece El Objectivo (The Objective), 2017. PhotoCourtesy of the author

The sniper position in Galindo’s piece El Objectivo (The Objective), 2017. PhotoCourtesy of the author

O trabalho no Palais Bellevue, intitulado La Sombra (A sombra), é um vídeo de Galindo em performance com um tanque de guerra do tipo Leopard. A “sombra” é o tanque em movimento, do qual o corpo da artista corre até a exaustão. Ele se parece com aqueles que estão parados no estacionamento na imagem capturada do Google Earth pela minha amiga. A videoperformance de Galindo, traz, assim, a geografia insuspeitada do arsenal armamentista de Kassel para o espaço de exibição da documenta, evidenciando, simultaneamente, o entrelaçamento do aparato de arte e de guerra no contexto da documenta 14, e as contradições do próprio trabalho da artista como um dispositivo crítico situado dentro dos limites do problema.

Regina José Galindo, La sombra (Der Schatten), 2017, Video, Installationsansicht, Palais Bellevue, Kassel, documenta 14, Foto: Daniel Wimmer

Regina José Galindo, La sombra (Der Schatten), 2017, Video, Installationsansicht, Palais Bellevue, Kassel, documenta 14, Foto: Daniel Wimmer

As obras de Galindo nos ajudam, como parte de uma posição curatorial mais ampla, a visualizar mais do que o aspecto pomposo da economia e da presença política de Kassel no mundo. Ao confrontar o corpo exausto da artista correndo da sombra do taque, somos levados a ver o leopardo invisível na sala de estar – ou, mais precisamente, na localização 51°20’11.1″N 9°29’06.0″E de um mapa online de Kassel. Além disso, ao almejar algo mais do que meramente fazer cair o véu que não permite um reconhecimento crítico dos fatos da guerra dentro do mundo da arte, ambas as obras de Galindo vão além da higienização que a arte faz dos conflitos sociais.

Mais especificamente, as preocupações de Galindo com o corpo em relação com a indústria de armamentos permitem que sua provocação ultrapasse o escopo alegórico das críticas macrossociais. Sua intervenção performativa nos convida a ter seriamente em conta questões éticas cruciais: onde você está situado no contexto do estado global de sítio? Como você se posiciona frente às políticas sociais de morte que destroem por todo o mundo o direito de se viver em paz? E no momento em que você está em condições de puxar o gatilho, como não fazê-lo?

Jota Mombaça é uma bicha não binária, nascida e criada no Nordeste do Brasil, que escreve, performa e faz estudos acadêmicos em torno das relações entre monstruosidade e humanidade, estudos kuir, giros decoloniais, interseccionalidade política, justiça anticolonial, redistribuição da violência, ficção visionária, fim do mundo e tensões envolvendo ética, estética, arte e política na produção de conhecimento do Sul-do-Sul global. Seus trabalhos atuais são a colaboração com a Oficina de Imaginação Política (São Paulo) e a residência artística com o CAPACETE 2017 na documenta (Atenas/Kassel).

Tradução do inglês por Heitor Augusto.

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